ENTREVISTA PAULA GIANNINI

Escrito em 20/09/2018
Rota Cultural


1) Por que resolveu se tornar atriz? Com que idade surgiu esta vontade?

Sou privilegiada, sempre fui. Nasci em uma família que me levava ao teatro, ao cinema, a museus, me presenteava com livros, liam para mim. Então, isso de ser atriz, autora e produtora, meio que nasceu comigo. Me lembro de obrigar meus primos, todos nós muitos pequenos, a fazer peças de teatro que eu criava e apresentar para a família e vizinhos que, obviamente, também assistia forçada. (rsrsrs) Me lembro de uma tia avó que dizia. “Essa aí será a nova Tônia Carreiro.” E eu adorava, porque achava a Tônia a cara de minha avó e eu sonhava em ser igual a ela, minha avó. 

 

2) Onde começou sua carreira? Seus pais te apoiaram com esta decisão?

Bem, os anos passaram, e minha família se mudava muito. Meu pai era engenheiro. Era um ano ou dois em cada cidade. Eu chorava, fazia amigos. Sempre fui dramática. 

Até que em uma dessa mudanças, meu pai, a fim de me consolar, contou que em meu novo colégio havia aulas de teatro, que eu adorava. Adorava? A essa altura já não me lembrava disso. Mas lembrei. O grupo do colégio era sério. Amador engajado e sério. Viajavam, concorriam a prêmios. Fiz o teste, não passei. Foi minha primeira desilusão com essa arte tão difícil em nosso país. 

Não desisti. Segui em frente. Estudei. Nos mudamos para Curitiba, lá passei nos testes para um grupo da Biblioteca Pública do Paraná e em pouco tempo já estava atuando profissionalmente. Anos depois, montei minha companhia, a Palco Cia de Teatro, com o Amauri Ernani. E aqui estou eu, a mesma menina que tenta convencer a todos a assistir seus espetáculos.       

 

3) Você teve em SP e em outras cidades uma das peças Comédia de relacionamento de maior Sucesso e é tida até hoje como uma das melhores comédias de relacionamento em cartaz que seria CASAL TPM, após este sucesso outras peças vieram tentando copiar este estilo de comédia como vc vê isso?

Há algum tempo li um livro sensacional. “Roubando como Um Artista”, de Austin Kleon. Esse texto é a cara de nosso século. Da arte em nosso século. Nada se cria, tudo é uma cópia da cópia, ou, melhor ainda, uma recriação reelaborada da cópia da cópia. Somos o somatório de tudo o que vemos, lemos, gostamos, e, no caso do teatro de comédia, temos que levar em conta aquilo que nosso público quer assistir.  

Então, creio que cada “casal” seja único. O Casal TPM é único e tem sua pegada, suas características, suas coisas boas, seus defeitos (sim, por que não?). O mesmo ocorre com os outros casais de comédia. O importante é que o teatro supere as dificuldades pelas quais passa e que sobreviva. Que todos vão ao teatro e aos casais, que são o maior sucesso. Afinal, o público adora se ver refletido no palco. 

 

4) Você vai ao Teatro ver outras peças? Qual espetáculo que assistiu e que mexeu com você? 

Muito. Vou porque amo. Eu e o Amauri Ernani. Amamos. Sempre fomos, desde que nos conhecemos. Nos apaixonamos no teatro. Fazendo. Assistindo. Onde vamos, procuramos peças par assistir. Comédias, dramas, de rua, experimental, infantis. Tudo. 

Escrevo sobre dramaturgia em uma Revista eletrônica quinzenal, “O Imaginário” (https://eduardoselga.wixsite.com/oimaginario/servicos), junto com o colega Eduardo Selga, um escritor incrível. No último número falei de uma das peças que mais me marcaram, por ser um espetáculo de teatro narrativo, desvestido de tudo, “Aldeotas”. Nos últimos tempos, assisti a muitas coisas boas. “Interiores” de Lucas Mayor e Marcos Gomes e O Gosto da Própria Carne montado pela queridíssima Rita Malot.  

 

5) Você após o Sucesso de Casal TPM teve outros espetáculos - Quais foram e qual peça sua você considera a peça da sua carreira - mesmo que não atue na mesma mas que sente carinho.

Clarisse Lispector costumava dizer que depois do livro publicado, ela o considerava morto. Partia para outro. Na literatura é assim. Eu penso o mesmo. A gente revisa, revisa, revisa e publica para não ter mais que revisar (não fui eu quem disse isso). E é uma verdade. 

Já na dramaturgia não. Você escreve uma peça para que aquela palavra tome vida na boca do ator. De uma forma ou outra, esta também é uma forma de morte. O texto já não é seu. É do ator, que a modifica, a interpreta de outro modo que aquele seu, original. Isso acontece mesmo quando sou eu quem interpreto os meus textos. É engraçado. Nem parece que fui eu quem escreveu. Uma espécie de esquizofrenia autoral. Será?  

Digo isso porque não sei se tenho (ao menos ainda) um espetáculo da minha vida. Tenho obras que escrevi e montei e amo. Auto para Maria – Cordel de Amor, Feira Popular de Causos Lendas e Crendices, A Vida Secreta das Coisas e O Amor – Esse Estranho Desconhecido (ainda inédito). Mas... rsrsrs Cada novo texto se torna o meu preferido. Em breve uma nova comédia de Casal (texto meu e ainda sem nome) será montada aqui em São Paulo. Ando apaixonada por essa peça. 



6) Você também e considerada uma grande escritora - quais seus livros e pretende escrever mais? Conte um pouco para nós de sua nova área de atuação.

Obrigada pelo “grande escritora”. Não sou grande. Grande é Clarisse Lispector, Adélia Prado, Guimarães Rosa, Raquel de Queiroz, Euclides da Cunha... Escritora sim. Tento. Ando muito apaixonada pela prosa. 

Meu primeiro livro “Pequenas Mortes Cotidianas” (Editora Oito e Meio), é uma coletânea de textos com os quais ganhei alguns prêmios e que me lançou no caminho que quero percorrer. 

Em 2017, também lancei o texto de meu espetáculo infantil “Se Essa Rua Fosse Minha – Espetáculo de Brincar” (Livro de Brincar – pela editora Bambolê). Esse foi Longe... Selecionado para representar o Brasil junto a outros três títulos da editora na Feira Internacional do Livro Infanto-Juvenil de Bolonha. A maior do gênero no mundo. Mas o mérito não é só meu, devo muito ao talentosíssimo ilustrador André Flauzino e a editora incrível que é a Ana Cristina Melo. 

Meu próximo livro, já pronto para ser enviado para as editoras, mescla linguagens. São contos-receita, alguns já premiados (até internacionalmente - chique! – na Universidade de Salamanca-ES), e que misturam o que há de mais afetivo na culinária com histórias de vida.   

 

7) Para os Fãs saberem quem é Paula Giannini, como é seu dia a dia? Sua comida predileta? Gosta de animais? Gosta de viajar? Seus Medos? Suas Manias? Se considera perfeccicionista?

Sou casada com o Amauri Ernani (meu companheiro de palco, arte e vida) e juntos temos 10 cachorros. Nove deles resgatados. Amamos cachorros. São o amor puro em forma de gratidão e alegria em nossas vidas. 

Sobre comida:. Adoro comer. Não à toa meu novo livro envolve comida. Mas não como carne. Desde pequena. Não gosto. Aos poucos, o convívio com os animais me fez ter aversão à morte que envolve comer animais. Mas sou uma falsa vegetariana, porque como peixe (ainda). Espero logo partir para o vegetal total. 

Gosto de ler. De ouvir livros em um aplicativo de leitura que leva o Amauri à loucura. Rsrsrs Ele odeia aquela voz robótica lendo. Eu gosto. Faço isso enquanto arrumo a casa, cuido dos cachorros... Me ajuda, inclusive, a encontrar erros em meus próprios textos. 

Perfeccionista? Não. Não sou. Me importo muito com o que pensam de mim. Isso é bobagem e me faz mal. Mas estamos aqui para aprender, não é? 

Sou avó. E estou morrendo de saudades dos meus netos que moram em Curitiba. Uma típica taurina. 

 

8) Qual ator te faz sair de casa para ir ao cinema? E atriz? Pode ser Brasileiro ou estrangeiro.

Gosto de teatro, cinema, livros em geral. Uma boa história me leva. Uma linguagem inovadora ou apaixonante dentro da arte, me arrebata. 

Gosto muito de brasileiros. Terei de citar o Gero Camilo, pois falei da peça dele no meu último artigo e quero muito assistir ao novo espetáculo dele, o Andy. 

Já fui (mais uma vez junto com o Amauri), seguidora do Antônio Nóbrega. Se sabíamos que havia um show, aula-palestra, lá estávamos nós. Continuamos gostando muito, mas andamos mais calmos. 😉   

 

9) Qual o seu livro de cabeceira?

São muitos. Costumo dizer que meu preferido “são vários”.  

Dos clássicos, Victor Hugo. “Os Miseráveis”, a “Última Noite de um Condenado”.

Dos contemporâneos, Gabriel Garcia Marques, “Cem Anos de Solidão”, “O Amor nos Tempos do Cólera”. 

Dos Brasileiros contemporâneos, o paranaense Domingos Pellegrini, tenho todos. “Conversas de Amor” e “Terra Vermelha” são os meus preferidos.

Ultimamente fiquei muito impactada com “Sul”, de Verônica Stigger. 

Mais brasileiros... Guimarães Rosas e seu “Grande Sertão Veredas”. 

Dos meus amigos, ultimamente li “Infância Roubada” de Sandra Godinho, editora Oito e Meio, a ser lançado em breve e no qual assino a orelha (mais chique ainda). O livro é maravilhoso. Recomendo. 

E para fechar a lista, dos contistas, ando interessadíssima em Mia Couto. 

   

10) Qual o Filme que te marcou? E por que?

Dogville, sobretudo pelo roteiro, mas, também, pelo experimentalismo mostrando que até no cinema é possível se fazer arte priorizando a palavra e rompendo o paradigma daquilo que entendemos como cenário, como construção de uma história.



11) Qual próximo Projeto? Planos para o Futuro? E como é viver de Teatro no Brasil? As Leis de incentivo ajudam? 

Estamos em crise e acredito nela, a crise, como algo que nos tira de nossa zona de conforto. Em breve eu e o Amauri montaremos um drama. Talvez algo ligado a meus livros. Tenho pensado muito nisso de levar a prosa ao palco. 

Em breve estrearemos, também, nosso novo infantil “Uma Estrela me contou... História da arte para crianças”, dentro de nosso Projeto Brincando com Arte, viabilizado pelo PROAC ICMS, através do incentivo da Gerdau, que já foi nossa parceria em alguns projetos. 

Sobre viver de arte no Brasil... É andar na corda bamba. Creio, porém, que qualquer profissional liberal ou independente passe por isso. A instabilidade em nosso país é terrível. A falta de incentivos reais para a cultura é algo que requer atenção. 

Não posso falar mal do mecanismo das leis de incentivo, até porque sou uma das poucas que conseguiram romper as dificuldades e me utilizar deles. No entanto, creio que o modelo, como ele é hoje, possui muitas distorções. Muitas. Existe uma espécie de campanha que circula por aí a fim de desacreditar a Lei Rouanet, por exemplo. Isso é um erro. No jornalismo como ele é feito hoje, nas redes sociais, na boca da população, circulam informações que fazem acreditar que o artista, de um modo geral, se utiliza do mecanismo de modo inescrupuloso. Isso não é uma verdade. Se não fossem os mecanismos de Lei de Incentivo, em um país como o nosso, que não subvenciona a arte, não teríamos cinema nacional ou os grandes musicais, por exemplo. O erro está no modo como os recursos são distribuídos, permitindo-se que algumas empresas patrocinem apenas projetos próprios ou favorecendo apenas a um pequeno grupo, de atores já reconhecidos pela grande mídia.

Muita coisa boa deixa de ser realizada, ou morre na casca, por falta de recursos. Quem perde com isso? Todos nós. A cultura é a alma de um povo.  

 

12) Você tem um Infantil Se Essa Rua - que já foi inclusive premiado - Como foi para você receber este prêmio e o que mudou em relação ao espetáculo depois da premiação? 

O Se Essa Rua Fosse Minha – Espetáculo de Brincar, tem mais de 15 anos. Essa peça estreou em Curitiba e no Rio de Janeiro simultaneamente e desde então, não paramos mais. Já fomos agraciados com o Prêmio Valores do Brasil, com o Pontinhos de Cultura (2 vezes), fomos finalistas no Brasil Criativo, selecionados no Circuito Cultura do CCBB, do SESC CBTIJ, e em muitos outros, agora, em 2018,  o texto foi para Bolonha representar o Brasil com a editora Bambolê e mais três livros, na maior feira literária do gênero no mundo. 

O que mudou? Nada. O elenco é maravilhoso (Andreza Crocetti e Sido Calesso – atualmente – muitos já fizeram este espetáculo), mas a dificuldade de sobrevivência continua se mostrando a mesma. Mais uma vez, o modelo que aí está e que não prioriza a cultura no país, faz o teatro sofrer. As salas de espetáculo são caras, a dificuldade em se alcançar a grande mídia, em atrair os críticos do gênero, em atrair os jurados dos prêmios especializados, é extrema. E a gente vai seguindo em frente. Porque é nisso que acreditamos, no tetro, na arte. É o que sabemos fazer. Nosso pão, nosso ofício.    

 

13) Você está com um novo espetáculo em cartaz AS CABELEREIRAS como foi a inspiração? Escolha de elenco? Tempo de ensaio? O espetáculo esta patrocinado o foi feito na raça? 

As Cabeleireiras é um texto antigo. Estramos em 2012 no Festival de Teatro de Curitiba, administramos por lá o Teatro Cultura durante 15 anos. Resolvemos remontar agora porque o tema, mais que nunca é pertinente. A crise, o mundo a cada dia entendendo melhor a igualdade de gênero, a comédia a cada dia mais necessária. No centro da cena temos um ator que interpreta Dalia, uma transex que está roubando a cena. 

A produção é da Palco Cia de Teatro, nossa Companhia, com produção Executiva de Andreza Crocetti, que também é atriz do espetáculo.   

 

14) Um bate-bola agora para os fãs de conhecerem melhor - 

Cor preferida? Pink

Um Sonho? Viver 150 anos 

Uma Viagem? Para Portugal. No Mosteiro dos Jerônimos, comendo pastel de Belém com o Amauri (sempre). Experiência sublime. Ou para o Brasil todo, qualquer canto é lindo. Mas ainda tenho tanto a conhecer. O mundo. 

Um Filme? Como já falei de Dogville, aqui citarei Frida. Adoro.  

Uma Mania? Escrever e trabalhar (sou workaholic, preciso parar com isso)  

Quem gostaria de conhecer se estivesse vivo e bater um papo? Minha tetra avó, a bailarina Marieta Baderna.

Uma Paixão? O Amauri Ernani. 

Uma paixão 2 – Meus netos, meus cães, a vida.

15) Paula, qual a suas considerações finais para o Público do Rota Cultural?

Vá ao teatro. Quem não frequenta teatro não faz ideia do que está perdendo na vida.